Em 1976, foi lançada a música “fotografia 3×4” do cantor e compositor Antônio Carlos Belchior, mais conhecido como Belchior. A música relata a realidade vivenciada pelo migrante nordestino na região Sudeste, situação comum na época onde o Brasil vivia intensos fluxos de migrações internas.

A partir da interpretação de Belchior, podemos perceber as dificuldades que esses migrantes enfrentavam nas décadas de 1960 – 1980.

Migrações internas no Brasil

No Brasil, em meados do século XX, ocorria um intenso movimento migratório (1960 – 1980), na ocasião muitos se deslocavam do campo para as cidades grandes, em destaque da Região Nordeste rumo à Região Sudeste.

Vários dos fatores justificam esse deslocamento, como é o caso do desenvolvimento econômico em outras regiões, a desconcentração industrial que culminou na ampliação da oferta de emprego, e por fim o crescimento urbano, o avanço da urbanização proporcionou a melhoria na infraestrutura de transportes e telecomunicações e de energia elétrica no país.

Migrantes nordestinos chegando a grande metrópole São Paulo.

Conforme os notáveis avanços ocorrem, também aumentam as dificuldades de se viver na cidade grande, em determinadas localidades. Belchior nos traz essa reflexão em relação a busca por melhoria de vida, como muitos brasileiros que residem nesse país de dimensões continentais.

A canção Fotografia 3×4

Eu me lembro muito bem do dia em que eu cheguei

Jovem que desce do Norte pra cidade grande

Os pés cansados e feridos de andar légua tirana

E lágrimas nos olhos de ler o Pessoa

E de ver o verde da cana

É sabido que por motivos econômicos e climáticos no Brasil ocorreram e ainda ocorre uma grande migração de pessoas, advinda das regiões norte e nordeste, para as regiões de maior desenvolvimento como sudeste e sul. “Os pés cansados e feridos de andar légua tirana”, já de início o autor nos mostra essa realidade do migrante, a distância causa sofrimento, a obrigação de deixar o seu lugar de origem e migrar para outra terra.

Em cada esquina que eu passava, um guarda me parava

Pedia os meus documentos e depois sorria

Examinando o três-por-quatro da fotografia

E estranhando o nome do lugar de onde eu vinha

Nota – se o contexto histórico em que o autor vivenciava, ou seja, revela o cenário político da época em que Brasil passava pelo regime militar, regime esse iniciado em 1964 e que durou até 1985, a discriminação e a perseguição eram comuns nos tempos em que o Brasil era governado por militares.

Pois o que pesa no Norte, pela lei da gravidade

Disso Newton já sabia, cai no sul grande cidade

São Paulo violento, corre o rio que me engana

Copacabana, Zona Norte

E os cabarés da Lapa onde eu morei

O contraste entre a sua terra de origem e a nova morada, referindo – se a uma característica das cidades grandes, o crescimento populacional, as concentrações urbanas geram problemas como violência e falta de empatia com o próximo, o caos da cidade difere do campo, que é calmo e devagar.

Mesmo vivendo assim, não me esqueci de amar

Que o homem é pra mulher e o coração pra gente dar

Mas a mulher, a mulher que eu amei

Não pode me seguir

Apesar das controvérsias ele não esqueceu as suas raízes, as dificuldades não o impediram de construir sua história, nesse contexto há também a questão familiar, pois muitos são obrigados a deixar esposa e amigos para buscar uma vida melhor.

Desses casos de família e de dinheiro eu nunca entendi bem

Veloso, o sol não é tão bonito pra quem vem do Norte e vai viver na rua

A noite fria me ensinou a amar mais o meu dia

E pela dor eu descobri o poder da alegria

E a certeza de que tenho coisas novas

Coisas novas pra dizer

Nesse trecho nota-se a dificuldade que é de deixar sua terra, largar tudo e recomeçar, de chegar na cidade grande sem nenhum conhecido se quer, sem nenhum amparo. Somente com esperança de que sua vida irá melhorar, o nordestino chega para ganhar a vida nas grandes cidades.

A minha história é, talvez

É talvez igual a tua, jovem que desceu do Norte, que no Sul viveu na rua

E que ficou desnorteado, como é comum no seu tempo

E que ficou desapontado, como é comum no seu tempo

E que ficou apaixonado e violento como, como você

Nesse trecho, em uma comunicação direta com os conterrâneos, se tornando um tanto realista, a partir de sua experiência na cidade grande, mudando o seu comportamento e sua filosofia de vida. O jovem que desceu do Norte foi amadurecendo, o tornando mais violento, mais frio, retirou sua vontade de sonhar e o tornou realista.

Então, Belchior é mais um migrante nordestino que deixou seu lugar, onde o afeto tomava conta da sua vivência, para viver no caos da cidade grande e que através da música nos diz com clareza o que se passa, cada um que tenta mudar sua qualidade de vida nos centros industriais do Brasil.

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